“ESCARIOLA”: A ESCAIOLA PELOTENSE

Pelotas teve seu crescimento e desenvolvimento em função da produção do charque, alimento de escravos. As primeiras charqueadas locais surgem ainda no final do séc. 18 e alcançam seu apogeu nas primeiras décadas do século 19, quando o charque seria o principal produto da economia do Rio Grande do Sul. Neste período, as famílias de charqueadores gozarão suas fortunas na Europa, em viagens com finalidade educacional, nas quais, além de conhecimento, obteriam gosto artístico refinado, ao alcance de suas posses familiares.

Para acompanhar a cidade, que se estruturava e embelezava, assim como para reproduzir a urbanidade em sua modernidade, vivenciada e apreciada nas estadias na Europa, eram necessárias edificações à altura. Desta forma, neste período, vários palacetes de barões e de outros importantes membros da elite local foram erguidos e remodelados. O contexto coincidiu com o da emigração europeia, quando aportam em Pelotas, principalmente imigrantes alemães, franceses e italianos, somando-se a portugueses e espanhóis já fixados. Estes imigrantes trazem consigo o conhecimento técnico que foi fundamental para dar vazão aos anseios desses abastados pelotenses.

Detalhe de escaiola da arquitetura pelotense.

Desse modo, a cidade de Pelotas contou, no passado, com a atuação de grandes profissionais da arte da escaiola. É o que atestam os exemplares arquitetônicos remanescentes, que preservam em seus interiores tal artística decoração parietal. Na iconografia antiga pelotense, encontram-se diversos registros de interiores enriquecidos por essa forma de imitação da pedra natural, buscada através de talentosos afrescos. Tal foi sua popularidade em Pelotas que a própria palavra “escaiola” acabou se transformando, na dinâmica da linguagem coloquial (informal) da língua portuguesa. O termo “escariola”, com acréscimo de um “r” é uma variação tipicamente pelotense, até hoje comumente empregada na cidade para se referir a escaiola.

            Um dos instrumentos auxiliares dos profissionais responsáveis pelas escaiolas pelotenses, para além de suas ferramentas de trabalho propriamente ditas, foi o livro Manual do Formador e Estucador. Editado em Lisboa – Portugal, e escrito por Josef Füller, este manual é um dos volumes integrantes da coleção Biblioteca de Instrucção Profissional, organizada por Thomaz Bordallo Pinheiro. Trata-se de uma importante série de manuais e livros de referência dedicados a profissionais de inúmeras áreas, incluindo aquelas relacionadas à construção civil. Junto a outro volume desta mesma coleção, intitulado Acabamentos das construções – Estuques, Pinturas, etc, de autoria de João Emílio dos Santos Segurado, o livro de Füller constitui preciosa contribuição à preservação do saber-fazer da escaiola, transmitido dentro da tradição lusitana de construção civil.

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